6. GERAL 7.8.13

1. GENTE
2. ESPORTE - DE TIRAR O FLEGO
3. RELIGIO  O EVANGELHO SEGUNDO FRANCISCO
4. ESPECIAL -  PIOR ANDA
5. ESPECIAL  ARTIGO JOO UBALDO RIBEIRO  NS, OS DESORDEIROS
6. VIDA DIGITAL  O PODER DE UM SIMPLES GESTO

1. GENTE
OUTRA LINDA MULHER
LVIA DE BUENO est gostando de interpretar um papel profundo, como a personagem Laura de Saramandaia, mas existem uns bobinhos que preferem ficar mesmo na superfcie. Tremenda, reconhea-se. Enquanto os superficiais se distraem, Lvia aprende com gigantes como Fernanda Montenegro  Aos 83 anos,  ela quem puxa os atores e pede que as cenas sejam refeitas, mesmo j tarde da noite, descreve. Lvia encarnou uma garota de programa em um seriado e no se incomoda com a glamourizao que a prostituio de luxo est ganhando na TV. Sou feminista. Mulher tem de fazer o que quiser com o corpo, define. Simplificao de questes complexas? No canse a beleza dela.

VESTIDO DE BOLINHA
Aos 44 anos, a atriz JENNIFER ANISTON tem demonstrado inteligncia esttica: cultiva um corpo espetacular, mas no extremamente magro, como  quase obrigatrio no seu meio. Os quilos perdidos acabam encovando e envelhecendo rostos mais maduros. O problema de Jennifer  que ela no consegue superar o fato de ter sido trocada por Angelina Jolie pelo ex-marido, Brad Pitt. D para compreender os motivos, mas a atriz no precisa sair dizendo que "todos merecem ter uma famlia; se voc passa a se amar profundamente, ela vira realidade". Parece que, desta vez, o noivo, Justin Theroux, a ajudar a superar o trauma.

CONVENCIONAL TAMBM PODE SER CHIQUE
Enquanto Kate Middleton curte o novo principezinho recluda na casa dos pais, os viciados em celebridades da realeza se distraem com a nova rainha da Blgica, a muito chique MATHILDE, 40. Ela  uma raridade entre as atuais consortes reais: nasceu em famlia no plebeia, da nobreza flamenga por parte de pai e uma av materna que era princesa polonesa. Formada em fonoaudiologia, depois de se casar com Philippe, ento prncipe herdeiro, em 1999, fez o esperado: teve filhos em srie, quatro, e montou um guarda-roupa elegante. Estilistas belgas tm histrico de rebeldia, mas ela usa muito o tradicional Edouard Vermeulen, que lhe confere um ar de Jacqueline Kennedy.

SEPTUAGENRIO  A...
Juntos, os quatro integrantes dos Rolling Stones somam 277 anos, dos quais MICK JAGGER entra com 70 recm-completados. O aniversrio propiciou a ressurreio de histrias como a que conta o seu primeiro dia na escolinha, quando anunciou aos colegas que tinha um conjunto de qumica em casa e ia explodir o mundo. Muitas coisas foram explodidas na trajetria que o levou a fazer msicas legendrias, desenvolver uma personalidade insuportvel e manter o corpinho enxuto. Ele ainda corre, faz ioga, kickboxing e, claro, bal. O namoro com a estilista L'WREN SCOTT, 46, de nome irreal (ela  Luann Bambrough) e altura surreal, 1.90 metro, tambm d um suadouro.

DIA DO CALOURO
Fazer fama e fortuna em cima da imagem de malvado como o ingls SIMON COWELL, criador e jurado cruel do programa de calouros The X Factor, d muito retorno. At que encontre o tipo de mulher que  surpresa, surpresa  engravida, como a socialite americana LAUREN SILVERMAN. No que Cowell no tenha correspondido  imagem e mantido um caso com Lauren enquanto passeavam todos  ele, ela, o marido dela  de iate pelo Caribe. O marido, milionrio do ramo imobilirio, entrou com o pedido de divrcio. Lauren entrou com o pedido de futuro: quer se casar e ter um programa de televiso. Cowell entrou com a cara de sabido enganado. "Isso  uma daquelas coisas. Quero manter o assunto na esfera privada", props, sabendo antecipadamente que no vai acontecer.


2. ESPORTE - DE TIRAR O FLEGO
O mergulho de 27 metros de altura, uma modalidade absurdamente perigosa, sonha virar esporte olmpico.
ALEXANDRE SALVADOR

     Imagine uma prova na qual, depois de saltar de 27 metros de altura, o atleta atinge 90 quilmetros por hora para, em seguida, ser subitamente desacelerado por uma fora equivalente a trs vezes a da gravidade. O high diving (ainda sem nome oficial em portugus)  assim to extremo que foi necessrio mudar a orientao destas pginas para poder explic-lo em detalhes (veja o quadro ao lado). Na semana passada, a modalidade, nascida dos esportes radicais, participou pela primeira vez de um campeonato mundial da Fina, a entidade mxima dos esportes aquticos, realizado em Barcelona. As disputas aconteceram no porto da capital catal, a partir de uma enorme plataforma, palco abissal de treze bravos e seis corajosas  no caso das mulheres, o salto acontece a 20 metros. A campe foi a americana Cesilie Carlton. Entre os homens, o vencedor foi o colombiano Orlando Duque, dolo precoce da modalidade. Embora houvesse toda uma estrutura de resgate (mergulhadores na gua, ambulncia e paramdicos de planto), os atletas no podiam dizer que se sentiam 100% seguros. A entrada na gua, se mal executada, provoca leses graves que podem levar  morte. Por isso, mesmo nos treinamentos, os mergulhadores evitam fazer mais de trs saltos por dia. "A exigncia muscular  muito grande, e o corpo simplesmente no aguenta ficar pulando dessa altura", diz o brasileiro Murilo Galves, treinador da americana que levou o ouro em Barcelona. A precauo nos treinos e nas competies  um sinal claro de que o esporte j evoluiu muito desde a dcada de 60, quando ganhou notoriedade com os saltadores de Acapulco, no Mxico. Apesar do fator risco, h quem defenda a incluso do high diving no programa dos Jogos de 2020, caso do americano Greg Louganis, lenda do salto ornamental. 

ALTURA
27m  O equivalente a pular de um prdio de nove andares (no salto feminino, a plataforma fica a 20 metros)

Durao mdia do salto - 3 seg
1 seg  MANOBRAS So executadas nos primeiros 10 metros. Em seu ltimo salto, o ganhador da medalha de ouro, Orlando Duque, realizou trs mortais e trs parafusos. Isso d em mdia uma manobra a cada trs dcimos de segundo.

2 seg (entre 17m e 15m) -  INSTANTE CRUCIAL Em trs dcimos de segundo, o saltador toma a deciso de girar o corpo para assumir a posio adequada de mergulho, com as pernas para baixo. Um erro nesse momento pode representar a diferena entre sair inteiro da gua ou com uma leso grave (veja abaixo)

10 m  A PLATAFORMA MAIS ALTA DO SALTO OLMPICO

POSICIONAMENTO - O mergulhador deve entrar completamente na vertical, formando um ngulo de 90 graus. As mos precisam estar rentes ao corpo, ao lado dos quadris ou protegendo a genitlia. O queixo fica apontado para a frente e os ps, semiflexionados para baixo, a fim de diminuir a rea de contato.

3 seg - Impacto - O atleta atinge a gua a 90 quilmetros por hora, com uma fora equivalente a trs vezes o seu peso. Isso significa que os ps de Orlando sentiram um impacto proporcional a 204 quilos.

MERGULHO - A profundidade mnima para a realizao da prova  de 5 metros, porque so necessrios 4 metros para desacelerar completamente o saltador.

SEGURANA Trs mergulhadores ficam de prontido para socorrer o atleta em caso de problemas.

O QUE PODE DAR ERRADO
 Ao entrar de cabea - Leso do sistema nervoso central ou traumatismo craniano
 Ao entrar de peito - Fratura de vrtebras e perfurao do pulmo 
 Ao entrar com as pernas afastadas - Rompimento de ligamentos dos joelhos e tornozelos.

Fontes: professor Marcos Duarte, da Universidade Federal do ABC, professor Jlio Serro, da Universidade de So Paulo, Jucelino Jnior, atleta de high diving, e Red Bull.


3. RELIGIO  O EVANGELHO SEGUNDO FRANCISCO
A sinceridade do papa mudar o comportamento da Igreja e atrair fiis  mas em nada afetar a milenar doutrina catlica.
ADRIANA DIAS LOPES, DE ROMA

     Uma das atividades mais banais de qualquer homem  fazer a barba  parece ser o atalho de um papa, mas no de todo papa, para demonstrar que at mesmo um vigrio de Cristo deve descer do cume de sua liteira simblica para se aproximar dos fiis. Uma das imagens mais conhecidas do bispo Karol Wojtyla, quase vinte anos antes de se tornar o sucessor de Pedro, em 1959, mostrava-o de pincel e espuma no rosto em um acampamento catlico do interior da Polnia. O papa Francisco, ao tratar dos cuidados pessoais com seu prprio rosto, foi ainda mais direto que Joo Paulo II, visto de modo to singelo apenas em foto antiga, garimpada em arquivos. A bordo do voo da Alitalia que o levava do Rio a Roma, depois do extraordinrio sucesso da Jornada Mundial da Juventude, respondeu a uma das 26 perguntas que os jornalistas lhe fizeram durante os 82 minutos de conversa com uma informao bonita pela simplicidade, dita em italiano. Um dos reprteres quis saber o que ele levava na pasta de couro preto que o acompanhou para cima e para baixo. De p, apoiado no costado do assento, Francisco sorriu: "No tenho a chave da bomba atmica. Sempre fiz assim, ali dentro tem um barbeador, livro de oraes, agenda, um livro para ler, sobre Santa Teresinha, de quem sou devoto. Sempre uso a bolsa quando viajo.  normal". Um barbeador  normal. Raro  um papa falante. 
     A sinceridade de Francisco exala de cada poro da barba nem to benfeita assim. O papa concedeu duas entrevistas corajosas. Uma delas, exclusiva, ao reprter Gerson Camarotti, da Globo News, exibida no Fantstico (veja o quadro na pg. 96). A outra aconteceu dentro do avio, coletiva. A enviada especial de VEJA participou do bate-bapo quase informal. Joo Paulo II, o papa peregrino, foi quem oficializou essa modalidade de contato areo com a imprensa. Mas conhecia as perguntas com antecedncia, evitando as delicadas. Se algo escapava, tratava de sorrir e ficar em silncio, aquele silncio que doa para o interlocutor. Francisco apareceu no fundo da aeronave, pegou um microfone e foi em frente. Calmo e simptico, com o carisma que atraiu multides no Rio e em Aparecida, passeou pelos temas mais espinhosos. "Foi uma das raras situaes em que um papa deixou em segundo plano o papel de chefe supremo da Igreja para comportar-se como lder espiritual prximo ao fiel comum", diz o cientista da religio Afonso Soares, da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo. A vulnerabilidade de Francisco diante de jornalistas quebrou protocolos milenares. 
     A maioria dos temas abordados deixaria qualquer prelado constrangido: corrupo na Cria Romana, a evaso de fiis, o Vatileaks, aborto e homossexualidade. Tudo aquilo que sempre tivemos vontade de perguntar. Uma resposta em particular fez estardalhao, quando a Francisco foi indagado sobre o lobby gay que supostamente domina a Cria: "Devemos distinguir o fato de uma pessoa ser gay de fazer lobby gay. Porque nenhum lobby  bom. Isso  que  ruim. Se uma pessoa  gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julg-la?". No dia seguinte, jornais do mundo todo estampavam a frase nas primeiras pginas. Representantes de entidades de defesa dos homossexuais consideram as palavras um enorme avano para a Igreja. Um olhar mais cuidadoso, contudo, mostra que no h novidades no contedo do que disse Francisco, apesar do evidente tom ameno, e de real humildade com que ele tratou de um assumo que alimenta dissonncias. "Francisco foi absolutamente coerente com a legislao catlica", diz o vaticanista americano Philip Pullella, que h trinta anos escreve sobre a Santa S, em Roma. Os outros papas pensavam do mesmo modo  a diferena  a retrica. Bento XVI afirmava, dogmaticamente e em tom professoral, que os gays devem ser acolhidos pela Igreja, ponto. Os pecadores, sim, mas nunca o pecado. Francisco entrega a mesmssima ideia, mas o "quem sou eu para julg-los?", que, alis, ele sempre repetiu no tempo de cardeal Jorge Mrio Bergoglio, o transforma em um pastor que se compadece das ovelhas de Cristo. Mas  ingenuidade supor que ele v acelerar qualquer tipo de mudana nas ptreas doutrinas catlicas. No vai. 
     H outro momento desse mesmo raciocnio sobre homossexualidade que pode servir de chave para entender a mente de Francisco. Preocupa-o apenas o lobby gay  "porque nenhum lobby  bom" , e no a existncia de gays no corao da Igreja. Bento XVI renunciou, e Bergoglio foi o escolhido, com um objetivo central: limpar a mquina burocrtica do Vaticano, subtra-la de todos os lobbies e roubalheiras. Trata-se de fortalecer a Igreja, saneando-a por dentro e fortalecendo-a perante os fiis, genuinamente evangelizadora (veja o artigo de J.R. Guzzo na pg. 134). Nas palavras de Bergoglio, "ir at as periferias, no apenas geogrficas, mas tambm existenciais". Como? Com simplicidade nos atos e na retrica. No Brasil. Francisco esbanjou gestos marcados por espontaneidade. Comeou com a arriscada deciso de andar de carro com a janela aberta. Diversas vezes pediu ao motorista do papamvel que parasse o veculo em frente a um fiel que queria beij-lo ou entregar um presente. Ao deixar a capela do Santurio de Aparecida, onde rezou para Nossa Senhora, j na porta da sada se virou mais uma vez para a imagem e sorriu para a santa.  um comportamento arrebatador. 
     E mesmo quem no teria muito para ser arrebatado pelo novo papa celebra seus feitos. Para parte da Cria Romana, o estilo de Francisco tem alguma utilidade. Na semana passada, nos primeiros dias depois de sua volta a Roma, a cpula do Vaticano festejava o fato de o secretrio de Estado da Santa S, o cardeal Tarcsio Bertone, ter passado inclume no Brasil. Bertone, o nmero 2 na hierarquia da Igreja, foi acusado de ser um dos principais algozes do pontificado de Bento XVI, responsabilizado pela perda de credibilidade da instituio. O cardeal manteve-se ao lado do pontfice nos principais compromissos no Brasil e nem sequer foi notado. Mas  bom ele ficar atento. Ao tratar da ordenao de mulheres. Francisco foi peremptrio: "Essa porta est fechada". Ele talvez queira dizer que outras se abriro, no as das convices catlicas, mas quem sabe aquelas que do para o precipcio de desmandos da Cria.

VITRIA DE QUEM CEDO MADRUGOU
     Nos seis dias da Jornada Mundial da Juventude, o reprter da Globo News Gerson Camarotti acordava s 4 horas para conversar com bispos e cardeais. O jornalista tinha uma obsesso: convencer Francisco a lhe dar uma entrevista exclusiva. Tnhamos de nos comunicar antes das 5h30, porque depois eles comeavam suas oraes e ficavam inacessveis", diz Camarotti. Na madrugada de 25 de julho, quinta-feira, o reprter recebeu a confirmao por mensagem de texto em seu celular: o papa falaria naquela tarde, na hora em que deveria estar fazendo a sesta. O Vaticano havia vetado a exclusividade, mas Francisco desdenhou da orientao. Ouviu prelados brasileiros na visita a Aparecida, um dia antes, para saber se valia a pena atender aos insistentes pedidos. Ante a resposta positiva, avisou apenas os mais prximos. A burocracia da Cria foi ignorada. S quando Camarotti e o colega Fellipe Awi chegaram  residncia do Sumar, no Rio, na qual o papa ficou hospedado no Brasil, as autoridades do Vaticano foram alertadas. Fato consumado, exigiram apenas que a cmera principal e o udio fossem fornecidos pela Santa S, por medida de segurana. 
     O esforo de Camarotti e do colega Awi  irmo do padre Alexandre Awi, que acompanhou o papa no Brasil como secretrio particular  comeou bem antes da chegada de Francisco, com pedidos a seis religiosos influentes. Quatro deles entregaram ao pontfice o livro que Camarotti acaba de lanar, Segredos do Conclave. Na esperana de obter pelo menos uma rpida conversa, ele se infiltrou em ambientes restritos do Palcio Guanabara e na sacristia da Baslica de Aparecida, onde flagrou a brincadeira de Francisco com um bispo: "Como estou feliz em te ver! Pensei que voc estava morto!". Camarotti conseguiu, ao final, vinte minutos de dilogo, sem restries. Finda a gravao, o papa disse j ter lido trechos do livro do brasileiro, e ainda emendou: "De onde  que tira tanta informao este homem?". Foi a comprovao de que persistncia associada a conhecimento pode dar resultados extraordinrios.
MALU GASPAR

NO HOUVE ASSUNTO PROIBIDO
Nunca um pontfice foi to direto e claro quanto Francisco na conversa com os jornalistas a bordo do voo da Alitalia que os levava a Roma. 

O LOBBY GAY
"Devemos distinguir o fato de uma pessoa ser gay de fazer lobby gay. Porque nenhum lobby  bom. Isso  que  ruim. Se uma pessoa  gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julg-la?" 
Comentrio: Francisco respondeu a uma pergunta sobre a atuao de um grupo de prelados homossexuais que trabalham na Cria, acusado de corrupo e trfico de influncia na Santa S. A postura isenta de preconceitos aponta para uma das linhas centrais do pontificado de Francisco: o retorno  essncia do cristianismo, seguindo fielmente as leis do Evangelho. A indagao modesta, "quem sou eu para julg-la?", j tinha sido usada outras vezes pelo ento cardeal Bergoglio. 

"Sobre monsenhor Ricca fiz o que o direito cannico manda fazer, que  a investigao prvia. E, nessa investigao, no h nada do que o acusam. No achamos nada." 
Comentrio: Battista Ricca foi nomeado por Francisco para ocupar um cargo na direo do Instituto para as Obras de Religio (IOR), o banco do Vaticano. H trs semanas, no entanto, monsenhor Ricca foi acusado por uma revista italiana de estar envolvido no lobby gay.

A MULHER NA IGREJA
"O papel da mulher na Igreja no se pode limitar a alguns cargos, como a catequista e a presidente da Caritas. Deve ser mais, muito mais. Sobre a ordenao, a Igreja j falou e disse que no. Essa porta est fechada." 
Comentrio: Francisco foi definitivo: quer uma Igreja acolhedora e misericordiosa, mas considera inaceitvel o afrouxamento em relao s doutrinas.

ABORTO
"A Igreja j se expressou perfeitamente sobre isso. No era necessrio voltar a esse assunto, como tambm no falei sobre a fraude, sobre a mentira. Para isso, a Igreja tem uma doutrina clara. Queria falar de coisas positivas, que abrem caminho aos jovens." 
Comentrio: ao responder sobre a razo pela qual no tocou em determinados assuntos morais durante a Jornada Mundial da Juventude, Francisco mostrou que sabe falar com seu rebanho. Mesmo que seja bvia a sua posio sobre o aborto, o tema no agradaria a muitos fiis, sobretudo os jovens. 

RELAO COM BENTO XVI
"Eu fiquei muito feliz quando ele se tornou papa. Tambm, quando renunciou, foi, para mim, um exemplo de grandeza.  um homem de Deus, de reza. Hoje, ele mora no Vaticano. Alguns me perguntam: como dois papas podem viver no Vaticano? Eu achei uma frase para explicar isso:  como ter um av em casa. Um av sbio. Na famlia, um av  admirado, amado e ouvido." 
Comentrio: a renncia de Bento XVI criou uma situao indita na Igreja - dois papas convivendo pacificamente sob o mesmo teto. Muitos acreditavam que Bento XVI ainda estivesse no comando das decises no Vaticano, mesmo como papa emrito. A resposta pe fim a essa dvida. 


4. ESPECIAL -  PIOR ANDA
Novas estatsticas mostram que a violncia no trnsito  a segunda maior causa de morte no pas,  frente at de homicdios, um efeito do desrespeito s leis e da m qualidade dos motoristas.
LEONARDO COUTINHO

60.752 mortos em 2012
Os acidentes de trnsito no Brasil matam, em um ano, tanto quanto...
...a guerra civil na Sria matou nos ltimos 20 meses
...a Guerra do Iraque em 3 anos
...a Guerra do Vietn em 16 anos (Apenas militares americanos)

     O mundo avana, o Brasil retrocede. Na Alemanha, as mortes em acidentes de trnsito caram 81% nos ltimos quarenta anos, e o governo tem como meta fechar um ano inteiro sem nenhuma vtima fatal. A Austrlia reduziu a mortandade nas ruas e estradas em 40% ao longo de duas dcadas. A China precisou de apenas dez anos para reverter uma situao calamitosa em que os acidentes de trnsito haviam se tornado a principal causa de morte entre os cidados de at 45 anos de idade. Entre 2002 e 2011, o desperdcio de vidas chinesas por colises, quedas de moto ou bicicleta e atropelamentos diminuiu 43%. O assombroso sucesso desses e de muitos outros pases, ricos e emergentes, em combater a violncia ao trnsito deveria ser uma inspirao para o Brasil. Por enquanto, o xito deles s amplifica o absurdo desta que  a maior tragdia nacional. Um levantamento feito pelo Observatrio Nacional de Segurana Viria para VEJA, com base nos pedidos de indenizao ao DPVAT, o seguro obrigatrio de veculos, revela que o nmero de vtimas no trnsito  muito superior ao que fazem crer as estatsticas oficiais (veja o quadro ao lado). Em 2012, foram registrados mais de 60.000 mortos, um aumento de 4% em relao a 2011, e 352.000 casos de invalidez permanente. Morre-se mais em acidentes de trnsito do que por homicdio ou cncer. Ou seja, ns, brasileiros, temos mais motivos para temer um cidado qualquer sentado ao volante ou sobre uma moto do que a possibilidade de deparar com um assaltante ou de enfrentar um tumor maligno. 
     Costumam-se apontar a precariedade das estradas, a infraestrutura deficiente, a falta de ciclovias e as falhas na sinalizao como as causas para as tragdias no asfalto. Tambm se afirma que os carros vendidos por aqui, que no passam nos padres de segurana europeus, so verdadeiras armadilhas letais sobre rodas. Todos esses fatores aumentam os riscos, mas a maior razo para o massacre no trnsito  que ns, brasileiros, dirigimos muito mal. Mais de 95% dos desastres virios no pas so o resultado de uma combinao de irresponsabilidade e impercia. O primeiro problema est relacionado  ineficincia do poder pblico na aplicao das leis e  nossa inclinao cultural para burlar regras. O segundo tem sua origem no foco excessivo em solues arrecadatrias para o trnsito  multas, essencialmente  e quase nenhuma ateno  formao de motoristas e pedestres. 
     Um estudo recente do Centro de Pesquisa Jurdica Aplicada da Fundao Getulio Vargas revelou que 82% dos brasileiros acham fcil desobedecer s leis no pas. E o fazem mesmo quando os maiores prejudicados so eles prprios. Uma fiscalizao eficiente e constante teria o poder de fazer os cidados abandonar as condutas de risco at que a postura responsvel se tornasse automtica. Foi o que ocorreu, em certa medida, com o uso do cinto de segurana. E  o que se tem tentado, at agora com pouco sucesso, com a embriaguez ao volante. Em 2008, quando entrou em vigor a Lei Seca, o impacto positivo foi imediato. Com medo de serem pegos no bafmetro, muitos motoristas deixaram de conduzir depois de beber. Como consequncia, no ano seguinte houve uma reduo de quase 4000 pedidos de indenizao por morte ao DPVAT. Bastou os motoristas descobrirem que no eram obrigados a soprar o bafmetro e que as blitze eram previsveis para a curva de mortes retomar a trajetria ascendente. 
     A nova verso da Lei Seca, aprovada no fim do ano passado, permite a punio dos condutores embriagados mesmo sem o bafmetro. Em muitas capitais, porm, s so realizadas operaes policiais durante a noite ou nos fins de semana. Em cidades pequenas, por sua vez, as autoridades frequentemente fazem vista grossa para as infraes de trnsito porque puni-las  considerado uma medida impopular  apesar de benfica para a populao. Esse paradoxo explica o aumento no nmero de vtimas envolvendo motos. A situao  mais grave no Nordeste, de onde vieram, em 2012, 21% dos pedidos de indenizao por morte no trnsito, metade dos quais envolvendo motos. Para os cidados que deixaram de ser pobres recentemente, a estreia no mundo dos veculos motorizados se d sobre duas rodas. Raros so os que se inscrevem em uma autoescola para tirar a carteira de habilitao. Os prefeitos so coniventes com essa irregularidade nas cidades pequenas ou nas periferias das metrpoles. "O resultado  que h muita gente conduzindo as motos como se fossem bicicletas ou jegues'", diz o economista Carlos Henrique Carvalho, do Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada (Ipea). Uma cena comum  a da famlia inteira  pai, me e filhos pequenos  espremida sobre uma moto, sem capacetes. No por acaso, o Nordeste  campeo nacional em nmero de vtimas com menos de 7 anos sobre motocicletas. A maior unidade de emergncia mdica da regio, o Hospital da Restaurao, no Recife, chegou a ter neste ano 80% dos leitos ocupados por acidentados. "O perfil das cirurgias de urgncia mudou. Nos anos 80 e 90, atendamos principalmente feridos por peixeiras e tiros. Agora, as motos so o maior vetor. Trata-se de uma epidemia", diz Miguel Arcanjo, diretor do hospital. 
     Um estudo coordenado por Carvalho, do Ipea, estimou em 40 bilhes de reais o prejuzo anual causado pelos acidentes. Esse valor  composto de despesas hospitalares, danos ao patrimnio, benefcios previdencirios pagos s vtimas ou a seus dependentes e perda do potencial econmico de cidados no auge de sua produtividade  nada menos que 58% dos mortos, segundo os dados do DPVAT, tm entre 18 e 44 anos. O foco nas campanhas publicitrias de "conscientizao", como faz o governo federal, no  suficiente para frear a perda de vidas.  preciso treinar melhor os motoristas e for-los a respeitar as regras de trnsito, como demonstram as experincias bem-sucedidas mundo afora. A Austrlia, por exemplo, tem um dos melhores sistemas de habilitao do mundo. Para tirarem carta, os australianos devem frequentar 120 horas de aulas prticas. No Brasil, so menos de vinte horas. Os australianos, depois de passar no teste, enfrentam inmeras restries at que se provem totalmente aptos a dirigir. Eles tm direito  habilitao a partir dos 16 anos, mas at os 18 s lhes  permitido dirigir de dia e acompanhados de um adulto, alm de no poderem levar nenhum outro passageiro. Dos 18 aos 22 anos, os australianos no podem jamais ser flagrados bbados ao volante. Se isso acontecer, eles perdem a carteira e s podem obter outra depois de um ano. Assim, formam-se motoristas hbeis e prudentes. No Brasil, a primeira habilitao tem status de provisria durante um ano, mas as regras so frouxas. Mesmo que o motorista cometa uma infrao grave ou duas mdias nesse perodo, sua nica punio  ter de voltar para a autoescola. 
     Se a Austrlia se destaca na educao dos motoristas, do exemplo francs aprende-se a importncia de tratar com rigor os crimes de trnsito. Quatro em cada dez condenaes na Justia francesa so relacionadas a crimes de trnsito  l, negligncia que resulta em acidente com morte d cadeia. No Brasil, raros so condenados e presos por isso. Uma das excees  o psiclogo Eduardo Paredes, da Paraba, condenado a doze anos de priso em maro passado por homicdio doloso (com inteno de matar). Em 2010, Paredes, embriagado, matou a defensora pblica Ftima Lopes ao avanar um sinal vermelho. O motorista chegou a ser preso, mas, por ser ru primrio, foi solto. Cinco meses depois, atropelou e matou mais uma pedestre. Paredes cumpre pena em regime fechado e no poder recorrer em liberdade. Sua condenao  um sinal de que a sociedade brasileira e, por extenso, a Justia comeam a avaliar que dirigir bbado em alta velocidade no  muito diferente de dar tiros a esmo com um revlver em uma praa. Muitos amigos e familiares de vtimas no aceitam mais que a perda de seus entes queridos seja considerada uma fatalidade, um simples azar do destino. Essa nova noo est sintetizada no nome da ONG No Foi Acidente, criada em homenagem ao jovem administrador Vitor Gurman, que morreu atropelado numa calada de So Paulo, em 2011. "Meu sobrinho nem sequer entrou nas estatsticas oficiais de vtimas do trnsito porque no faleceu na hora, mas cinco dias depois, no hospital", diz Nilton Gurman, tio de Vitor, cujo atestado de bito contm apenas a informao de que morreu de falncia de mltiplos rgos. Esse exemplo ajuda a entender por que os dados do governo no do a real dimenso da tragdia no trnsito brasileiro. "O governo tem conscincia dessa falha na base de dados e tentar corrigi-la", diz o ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, cuja pasta cuida das polticas de trnsito. O nmero de acidentados ou seus familiares que a cada ano pedem indenizao ao DPVAT  uma fonte de dados mais precisa, e pe o trnsito como a segunda maior causa de morte no pas, atrs de doenas circulatrias. Em dezesseis anos, a Guerra do Vietn foi menos letal para as fileiras dos Estados Unidos do que o vai e vem de veculos e pedestres consegue ser em um ano para o Brasil. O trnsito  o nosso Vietn. 

A MAIOR TRAGDIA BRASILEIRA
Os dados do DPVAT, o seguro obrigatrio pago aos acidentados, revelam que o trnsito causa mais mortes no Brasil do que fazem crer as estatsticas do governo, baseadas no Datasus, superando a criminalidade.

TOTAL DE MORTOS
2008
No trnsito, segundo o DPVAT: 57.116
Por homicdio: 50.113
No trnsito segundo o Datasus: 38.273

2009
No trnsito, segundo o DPVAT: 53.052
Por homicdio: 51.434
No trnsito segundo o Datasus: 37.594

2010
No trnsito, segundo o DPVAT: 52.260
Por homicdio: 50.780
No trnsito segundo o Datasus: 40.989

2011
No trnsito, segundo o DPVAT: 58.134
Por homicdio: 52.198 (ltimos dados disponveis)
No trnsito segundo o Datasus: 43.256 (ltimos dados disponveis)

2012
No trnsito, segundo o DPVAT: 60.752
Os jovens so as principais vtimas
Do total de mortos no trnsito em 2012,
41% tinham entre 18 e 34 anos de idade. Isso equivale...
... a 2 tragdias como a da Boate Kiss, em Santa Maria, por semana
...ao dobro do nmero de mdicos formados anualmente no pas
...a 90 em cada 100.000 jovens adultos brasileiros.

O PERIGO SOBRE DUAS RODAS
Nos ltimos doze anos, a frota de motocicletas aumentou 300% mais do que a de carros. Menos seguras do que os automveis, elas costumam ser o primeiro veculo motorizado de muitos brasileiros que ascenderam socialmente e nunca haviam dirigido antes. Isso explica em parte o crescimento das estatsticas de mortos e, principalmente, de acidentados que ficaram invlidos.
PERFIL DAS VTIMAS FATAIS
17% eram passageiros
18% eram motoristas de carro, nibus ou caminho
40% estavam em motos
25% eram pedestres ou ciclistas

INVALIDEZ PERMANENTE (*Paraplegia e tetraplegia, mutilao, perda de qualquer tipo de movimento e leses neurolgicas)
2011  239.738
2012  352.495  74% das vtimas estavam em motos

 O nmero de mortes entre motociclistas triplicou desde 2000
 Os pilotos ou passageiros de motos tm 30 vezes mais probabilidade de morrer ou se machucar do que quem anda de carro
 Metade das 7000 crianas com menos de 7 anos que ficaram invlidas no trnsito em 2012 estava na garupa de motos

CAMPEO INGLRIO
O Brasil tem a quinta maior taxa de mortes no trnsito do planeta, segundo levantamento feito com base no Datasus, do Ministrio da Sade. Se forem consideradas as estatsticas do DPVAT no mesmo perodo, o pas salta para o primeiro lugar (em mortos por 100.000 habitantes)
1 BRASIL 31,1
2 CATAR 30,1
3 EL SALVADOR 23,7
4 BELIZE 23,6
5 VENEZUELA 23,4
Fontes: Mapa da Violncia do Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, com nmeros da OMS, e seguradora DPVAT

AS ESTRADAS DA MORTE
Os trechos mais letais das rodovia federais em 2012

1 BR-316  Ananindeua (PA)
Trecho | Km 0 ao Km 10
Mortos 32
Fedidos 463
Acidentes 1355

2 BR-381  Betim (MG)
Trecho | Km 490 ao Km 500
Mortos 23
Fedidos 377
Acidentes 1084

3 BR-101  Serra (ES)
Trecho | Km 260 ao Km 270
Mortos 20
Fedidos 312
Acidentes 1209

4 BR-277  Guaraniau (PR)
Trecho | Km 480 ao Km 490
Mortos 20
Fedidos 31
Acidentes 46

5 BR-040  Juiz de Fora (MG)
Trecho | Km 390 ao Km 400
Mortos 18
Fedidos 26
Acidentes 16

OS PECADOS DOS MOTORISTAS
98% dos acidentes de trnsito so causados por erro ou negligncia humana. A seguir esto as principais falhas cometidas pelos brasileiros nas ruas e estradas
1 Usar o celular ao volante - Ler uma mensagem de texto com o carro a 60 km/h equivale a percorrer 76 metros s cegas.
2 Dirigir alcoolizado - Em 21% dos acidentes, pelo menos um dos condutores havia bebido.
3 Dirigir colado na traseira do carro  frente - Responde por 12% dos acidentes registrados nas rodovias federais.
4 Dirigir acima da velocidade permitida - 12% dos acidentes so resultado dessa infrao.
5 Deixar de ligar a seta - Trocar de faixa sem ligar o sinalizador obriga o motorista na pista ao lado a frear bruscamente, s vezes sem tempo hbil para evitar a batida.
6 Deixar de usar o cinto de segurana - Em uma coliso frontal a 60 km/h, um passageiro que viaja no banco de trs sem cinto  arremessado com um peso equivalente a 1000 quilos, esmagando quem est na frente.
7 No fazer a manuteno do veculo - A falta de cuidados mecnicos causa o dobro dos acidentes provocados por ultrapassagens proibidas
Fonte: Observatrio Nacional de Segurana Viria

EM NOME DOS PAIS
O empresrio Milton Fior, de 53 anos, e sua mulher, Normlia, de 50, de Porto Alegre, consideravam ter cumprido a sua misso com as filhas, a advogada RAQUEL e a mdica BRBARA FIOR, de 28 e 24 anos, e preparavam-se para conhecer o mundo a dois. A um ms da formatura de Brbara, no incio deste ano, porm, o carro em que viajavam foi atingido por uma picape que vinha na direo contrria a 196 quilmetros por hora, no interior do estado. As irms contrataram percia particular, e o motorista da picape, Helmuth Horst, foi denunciado por homicdio doloso. "A nossa luta, agora,  para que ele v a jri popular at o ano que vem", diz Raquel.

APOSENTADORIA PRECOCE
O limpador de vidros DAVID SANTOS DE SOUSA, de 21 anos, teve o brao decepado por um carro que o atingiu na Avenida Paulista, em maro deste ano. A polcia diz que o motorista, Alex Siwek, estava bbado. Desde ento, Sousa, que guarda a bicicleta usada no dia do acidente, est desempregado e chegou a ficar sem dinheiro at para pagar o nibus para ir  fisioterapia. Em junho, comeou a receber uma aposentadoria por invalidez da Previdncia e, no ms passado, uma empresa de prteses deu a ele um brao binico, que lhe devolver parte dos movimentos. "Pela minha f, eu o perdoo, mas assim mesmo ele deve prestar contas  Justia", diz Sousa sobre Alex.

ELE FEZ TUDO CERTO
Numa sexta-feira de julho de 2011, o administrador de empresas paulista Vtor Gurman, de 24 anos, pegou carona com um amigo para ir a uma festa, porque no queria voltar dirigindo depois de beber. Divertiu-se e, na madrugada, preferiu seguir caminhando para casa. Um Land Rover conduzido pela nutricionista Gabriella Guerreiro invadiu a calada e o atingiu. Assim como Vtor, ela voltava de uma noite de diverso e admitiu que havia bebido. O administrador morreu cinco dias depois. "Meu sobrinho adotou a conduta de quem preserva a prpria vida e a dos demais. A pessoa que o matou fez exatamente o contrrio", diz MILTON GURMAN, que fundou a ONG No Foi Acidente para defender punies mais duras para os crimes de trnsito.

UMA PRTICA COMUM E PERIGOSA
Em 2012, Emylly Suellen Cristina da Silva, de 2 anos, morreu depois de cair do colo de um amigo da famlia, que viajava na garupa de uma moto na cidade pernambucana de Nazar da Mata. O carro que os atingiu seguia em alta velocidade, e o motorista nem sequer parou para prestar socorro. "A gente nunca imaginava que essas coisas vo acontecer com a gente diz Josefa da Silva, bisav da garota, que contratou o mototxi para lev-la at o endereo onde LIDA DA SILVA, me da criana, se encontrava. "Nunca mais terei a Emylly de volta", diz lida. O Nordeste tem o maior ndice de mortes de crianas na garupa de motos do pas.

SEM F NA JUSTIA
Bbado e dirigindo a uma velocidade de 173 quilmetros por hora, o ento deputado estadual Fernando Ribas Carli Filho atingiu o carro em que seguiam Gilmar Rafael Yared, de 26 anos, e Carlos Almeida, de 20, em 2009, em Curitiba. Os dois morreram na hora. Carli Filho estava com a carteira suspensa por causa dos 130 pontos que colecionava no pronturio. "Acreditamos que ele ser condenado, mas duvidamos que v preso", diz GILMAR YARED, pai de uma das vtimas. "Todos os dias, ns, brasileiros, recolhemos uma quantidade enorme de mortos dos asfaltes. Isso tem de ter fim", diz sua mulher, CHRISTIANE.
COM REPORTAGEM DE ANDR ELER


5. ESPECIAL  ARTIGO JOO UBALDO RIBEIRO  NS, OS DESORDEIROS 
 comum que, quando estamos falando mal do Brasil, nos refiramos na terceira pessoa tanto ao pas quanto a seu povo. Dizemos que o brasileiro tem tais ou quais defeitos graves, como se ns no fssemos brasileiros iguais a quaisquer outros. Em relao aos polticos, agimos quase como se se tratasse de marcianos ou de uma espcie diferente da nossa, no de gente aqui nascida e criada, da mesma maneira que ns. Somos observadores e vtimas de fatos com cuja existncia no temos nada a ver. Os corruptos so "eles", os que desrespeitam a lei so "eles", os que sujam as cidades so "eles", os funcionrios relapsos so "eles"  nunca ns. 
     Paralelamente, nos comprazemos em cultivar a noo de que o povo brasileiro  basicamente muito bom, de ndole generosa, honesto, solidrio, hospitaleiro, pacfico, cordial, alegre e assim por diante. Artigos, conferncias e discursos que envolvam crticas negativas a alguma caracterstica dos brasileiros contm sempre uma ressalva de praxe, a de que o povo no pode ser acusado de nada, o povo  bom. Com isso, esquecemos que no h povo geneticamente bom ou ruim e que o comportamento e os valores prevalentes em qualquer sociedade se originam em elementos culturais, entendidos estes em seu sentido mais lato. 
     H quem faa uso de estatsticas comparativas para mostrar que, em reas como a segurana, por exemplo, algumas grandes cidades nossas apresentam ndices de criminalidade comparveis com os de cidades americanas do mesmo porte. Ento no estaramos to mal assim. Mas no h como fazer uma comparao adequada. O nmero de infraes e de ocorrncias policiais em cidades americanas  muito maior do que seria aqui, porque l se recorre  polcia com muito mais frequncia, relativamente. Aqui, tem gente que no d queixa nem de carro furtado. Sem falar que as estatsticas geralmente no mostram assaltos organizados e sanguinrios realizados desde So Paulo a cidadezinhas do interior do Nordeste, onde parece que est surgindo um cangao modernizado, com os invasores intimidando a populao, explodindo caixas de bancos, pilhando casas comerciais e invadindo fazendas. E existem ainda as vastas reas onde no h polcia, ou a presena do estado  rarefeita e espordica. No caso, as estatsticas, porque viciadas na origem, valem bem pouco. 
     E no somente a violncia e a insegurana so maiores entre ns do que geralmente se reconhece. No est na moda falar em padres morais e quem se arrisca a mencion-los  desdenhosamente chamado de moralista. Mas no tem nada de moralista aquele que lembra que o homem  um ser moral. Sem senso moral, o homem  um bicho ou um psicopata. Claro, a nao no perdeu suas referncias morais, mas o clima nessa rea parece hoje cnico e complacente e no  raro que o apego a algum valor moral seja qualificado como coisa de otrio. Recato e pudor parecem ter sumido e o exibicionismo, em mil formas contemporneas, se manifesta em toda parte. Atos de civilidade, como devolver dinheiro achado, so manchete nos jornais. 
     No h rgo pblico que no seja alvo de acusaes ou suspeitas de corrupo, nepotismo, trfico de influncia e outras prticas imorais ou criminosas. O engenho nacional desenvolveu sistemas eletrnicos avanados e organizou equipes de "consultores" para fraudar concursos e exames. Dia sim, dia no, noticiam-se desvios de verbas astronmicos, obras pblicas caindo  aos pedaos antes de serem concludas e toda espcie de falcatrua. Neste instante mesmo, centenas ou milhares de policiais, pelo pas afora, esto embolsando o "agrado" que lhes do os motoristas, para evitar uma multa. Tambm todos os dias, centenas de milhares de pessoas, ou at milhes, pagam meia-entrada com carteiras de estudante falsificadas. O "por fora"  rotineiramente cobrado, em servios que ou deveriam ser gratuitos ou fceis de obter. Vivemos imersos num mar de pequenas delinquncias cotidianas que j no notamos, ou ento achamos que fazem parte natural e inevitvel da vida. 
     O desprezo pela lei e pela moral, a no ser nos raros casos em que a sano chega com prontido e eficcia,  a regra entre ns. E essa situao  piorada pela existncia das conhecidas leis que no pegam, ou ainda, de leis meio disparatadas, que ningum acredita que sero observadas com rigor. Por exemplo, h quem sustente que, se o sujeito for pegado por um fiscal do Ibama, matando um caititu no mato,  melhor negcio matar o fiscal do que reconhecer o assassinato do caititu. Depois de matar o fiscal, o caador foge do flagrante, apresenta-se depois  polcia,  ru primrio com domiclio conhecido, responde a processo em liberdade e pega a seus dois aninhos, talvez em regime semiaberto. J a morte do caititu seria crime inafianvel, cana dura imediata e implacvel. 
     As estatsticas brasileiras de mortes e ferimentos em acidentes de trnsito so um escndalo, qualquer que seja o critrio usado para avali-las. Todo o trnsito brasileiro  um escndalo, nas cidades e nas estradas. Quem passa algum tempo fora do Brasil tem que reavivar seus reflexos, para atravessar ruas. Os motoristas brasileiros se comportam como se o fato de um pedestre atravessar com o sinal fechado para ele lhes desse o direito de atropel-lo. Todos os pedestres passam de vez em quando pela experincia de atravessar a rua bem antes da passagem de um carro e ver o motorista acelerar na sua direo, como se mirasse nele. Nas estradas, as manobras arriscadas, como ultrapassagens em pontos onde h sinalizao proibindo-as, so rotineiras, assim como o uso do acostamento como pista e a violao contumaz dos limites de velocidade. E as pesquisas revelam tambm que a maior parte dos acidentes  o resultado de imprudncia e m conduta ao volante, desprezo pelas leis e normas tcnicas. 
     Decifrar as causas desse comportamento equivale, de certa forma, a decifrar o Brasil, tarefa jamais completada por ningum. As causas so mltiplas, controvertidas e complicadas, o que torna muito difcil at mesmo identific-las corretamente. Por esta razo, assim como fazem os mdicos, quando no conseguem um diagnstico preciso ou no conhecem com exatido a causa de uma doena, o tratamento sintomtico  o nico caminho. No sabemos bem por que somos desordeiros, mas sabemos que somos. E estamos condenados a continuar sendo, enquanto no levarmos a srio o desrespeito  lei e mantivermos uma relao afetiva com a malandragem, a esperteza marola e a frouxido de princpios.
Joo Ubaldo Ribeiro  escritor


6. VIDA DIGITAL  O PODER DE UM SIMPLES GESTO
Um pequeno sensor permite comandar o computador com os movimentos das mos.
VICTOR CAPUTO

     Minority Report e Homem de Ferro so filmes repletos de maravilhas tecnolgicas que parecem perfeitamente viveis, mas ainda no foram inventadas  com ao menos uma exceo. Posto  venda na semana passada nos Estados Unidos, o Leap Motion  um sensor de movimentos que permite o controle por gestos de programas de computador, como se viu os personagens de Tom Craise e Robert Downey Jr. fazendo no cinema. Desenvolvido por uma empresa com sede na Califrnia, o Leap Motion  menor do que um iPod, conecta-se por entrada USB e custa 80 dlares. O controle por gestos  parte de uma tecnologia que os especialistas chamam de interface natural. Tudo aquilo que  feito com o mouse e o controle remoto passa a ser realizado com movimentos corporais. O Leap Motion  o primeiro dispositivo pequeno e barato a fazer tudo isso num computador. 
     O movimento mais bsico, passar a mo diante do sensor, faz o cursor correr na tela. Outros gestos so especficos, como o uso do indicador para substituir as funes de selecionar e clicar. No  complicado como tornar-se fluente na linguagem de sinais para surdos, mas dominar os movimentos corretos exige prtica. Uma razo  que, ao contrrio do que ocorre com o mouse, nem todos os programas funcionam direito com o Leap Motion. O melhor desempenho  obtido com aplicativos desenvolvidos especificamente para ele. Mais de setenta desses apps podem ser baixados na loja existente no site do Leap Motion. Alguns so gratuitos, outros custam poucos dlares. Entre os mais populares, a verso do game Angry Birds e a do Google Earth. 
     O dispositivo com sensor de movimentos ser protagonista de uma revoluo similar  do mouse? O aparelhinho que se adapta com conforto ao formato da mo e todo mundo usa para comandar o PC foi inventado em 1963 pelo engenheiro americano Douglas Engelbart. Mesmo duas dcadas depois, um modelo simples custava 300 dlares. O mouse s revolucionou o modo de comandar o computador depois de Steve Jobs, da Apple, criar, em 1983, a verso com apenas um boto, fabricada com  material barato e vendida a 15 dlares. "Os dispositivos de captao de movimentos at ento existentes eram complicados demais para uso em computador", diz Marco Rossi, da Farofa Studios, desenvolvedora brasileira de aplicativos para o Leap Motion. "Com esse novo aparelho, feito especificamente para computador, ficou bem mais simples. Em testes feitos em nossos estdios, crianas se adaptam ao uso em poucos minutos." 
     O Leap Motion abre um leque de novas possibilidades. Mas, comparado a outros produtos com tecnologia de captao de movimentos,  uma mquina simples. Suas duas cmeras e trs sensores infravermelhos esto programados para rastrear os movimentos realizados pelos 29 ossos, 123 ligamentos, 29 juntas e trinta artrias da mo humana. O Kinect 2, que comear a ser vendido em novembro com o videogame Xbox One, da Microsoft, precisa dar conta de tarefas mais elaboradas: capta em trs dimenses o ambiente de um cmodo, usa raios infravermelhos para mapear o corpo inteiro de seis pessoas, mede a frequncia cardaca de cada uma delas, reconhece comandos de gestos e de voz, percebe a forca aplicada a cada movimento e, pelo tom de voz e pelas expresses faciais, o humor de cada jogador. 
     O Kinect 2 foi projetado para o videogame, mas pode ser adaptado para PCs, para guiar robs e outras mquinas a distncia. Uma diferena significativa entre os dois produtos  o preo. O Leap Motion  vendido pela metade do que custa um Kinect. Talvez esteja se repetindo o que aconteceu com o mouse da Apple, criado por Steve Jobs. Pode no ser o primeiro exemplar de uma tecnologia, mas apresenta os recursos e o preo certos para se tornar um produto de consumo em massa. 

UM GRANDE SALTO PARA O MOUSE
O Leap Motion  menor que um iPod e permite comandar o computador apenas com gestos. 
O aparelho captura os movimentos realizados dentro de um campo semicircular  frente do computador.
Duas cmeras e trs sensores infravermelhos operam em conjunto para detectar movimentos feitos com os dedos e as mos.


